Querem saber? Faz tempo que não ouça nada sobre o tal Teló. Sem entrar no mérito se a música é dele, do João ou da Maria, quero mesmo é colocar alguma palavra sobre a música, seu sucesso na grande mídia e as críticas dirigidas a ela.
Na verdade, poderia usar este espaço pra alargar a coluna das críticas, dizendo coisas como "hoje em dia, música ruim é que faz sucesso", ou "a indústria cultural cria e troca ídolos como trocamos de cueca", ou ainda "onde já se viu uma porcaria dessa ser considerada representante da cultura brasileira".
Acontece que eu estou começando a achar todo esse papo crítico um pouco batido. Às vezes tenho a impressão que a crítica já faz parte do pacote distribuído pela tal indústria cultural. Esses tipos de comentários e posicionamentos me parecem cada vez mais óbvios, superficiais, e repetitivos, tanto quanto os refrões que as empresas fonográficas têm lançado no mercado.
Por isso, me proponho aqui a fazer a crítica da crítica, e com isso, uma defesa inóspita deste grande sucesso musical que é a "Ai se eu te pego".
A consideração mais relevante que os críticos tecem para argumentar contra esse tipo de música é sobre seu conteúdo textual, dizendo que não há nenhum tipo de valor poético e muito menos algum convite à reflexão.
Vejamos:
Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego
Delícia, delícia
Assim você me mata
Ai, se eu te pego
Ai, ai, se eu te pego
Sábado na balada
A galera começou a dançar
E passou a menina mais linda
Tomei coragem e comecei a falar.
Outro argumento das críticas é sobre o baixíssimo nível da obra em seu sentido musical. A música é péssima... a harmonia é pobre, os arranjos são óbvios, a melodia é repetitiva.
Quanto à questão da letra, realmente é um texto com nada de excepcional. É algo extremamente comum e cotidiano. E é aqui que queria chegar. No cotidiano. Talvez, "ai se eu te pego" tenha feito tanto sucesso porque fala justamente de coisa bastante comum à vida da maioria das pessoas? Fala sobre desejo, vontade, atração, beleza física... em síntese, fala sobre LIBIDO.
"Pois é! É justamente isso. É só disso que falam todas essas músicas de hoje em dia!" _ dirão os críticos. Sobre isso, chamo a atenção para uma diferença. Nesta letra o sexo é colocado de forma bem menos vulgar que em outras e não há insinuações pornográficas como na maioria.
Sabem, às vezes acho essas críticas um tanto quanto recatadas! Afinal, quem é que nunca viu uma garota, numa festa, num bar, etc... achou linda, e ficou com vontade de beijá-la e dar uns "esfregas" com ela? E a mesma pergunta pras garotas... Qual garota não sente desejos sexuais? Se não sente é bom procurar ajuda (psicológica), que o nome disso é frigidez e, se eu não me engano, sinal de histeria.
Enfim... não vejo nada de mal em uma letra que represente tão diretamente e de forma tão simples algo que é inerente a toda uma coletividade - podem chamar de paquera, azaração, galinhagem, um-sete-um, flerte, dar em cima, pegar, ficar, fornicar, dar mole, etc, etc, etc...
Sobre a questão da qualidade harmônica e melódica. Isso é outra coisa que tem me deixado com uma pulga atrás da orelha. As críticas ao nível da qualidade musical das obras rechaçadas me parecem, assim como as que se referem à qualidade literária, um tanto elitistas. Partem sempre de um ponto de vista quase erudito, colocando como referência de musicalidade artistas como Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano, entre outros, isso quando não chegam ao extremo de comparar com Beethoven, Mozart, Vivaldi...
Lamentável! Querem saber? Gosto da musicalidade do ai se eu te pego. Tem um ritmo e balanço envolventes e contagiantes, propícios à dança. É um convite para chacoalhar os esqueletos, divertir-se no salão, experimentar os movimentos do corpo. Aliás, este é outro ponto em que gostaria de chegar. Ritmo e corpo.
O caso é que me parece que essas considerações clássicas, tradicionalistas e conservadoras sobre valor musical ficam presas a elementos extremamente racionalistas, verificando se tal ou qual música obedecem a padrões musicais específicos. Além disso estes padrões estão sempre atrelados a uma determinada visão de mundo, bem como a uma determinada classe social, que é privilegiada pelo acesso, tanto aos bens culturais mais requintados, quanto às próprias possibilidades de produção destes bens dentro dos padrões.
Digo, inclusive, que estas críticas estão impregnadas por um certo etnocentrismo, que encara tudo aquilo que não tem ligação com as origens refinadas da cultura européia como porcaria ou pobre culturalmente.
Voltando à questão do corpo. É marcante na cultura européia, pelo menos em grande parte de seu desenvolvimento histórico, a marginalização do corpo. Entre o corpo e o intelecto, o primeiro sempre esteve em um nível inferior, enquanto o segundo permanece em um altar digno de glória. O corpo foi, durante bastante tempo, visto como inimigo do bem e da verdade, e como responsável por levar o homem ao erro e à ilusão. Isso para a cultura européia.
Os nativos americanos, por exemplo, ou as tribos africanas, mantinham uma relação harmoniosa e saudável com o corpo. Não tinham vergonha de seus corpos, andavam nus ou semi-nus sem nenhum, pudor ou pecado. Suas músicas eram um convite acentuado para a expressividade e linguagem corporais. Mas quando os colonizadores, europeus, chegaram, claro que acharam tudo isso um absurdo - homens-bestas, irracionais, entregas aos caprichos pecaminosos do corpo. E trataram de botar roupas nos índios e negros e ensinar cultura européia, incluindo música de bom gosto. E coitado daquele que não aceitasse. O fogo do inferno lhe vinha antecipado através de castigos, torturas e morte impressos pela força do exército e legitimados pelo intelecto.
Enfim, histórias da colonização à parte, pra mim chega das críticas acríticas que se fazem à essas porcarias da indústria cultural. Tais críticas não passam também de produtos da mesma indústria.
Unida à marginalização do corpo está a repressão sexual, e de carona vem a depreciação de tudo aquilo que considera mais os aspectos corpóreos e instintivos do ser humano e ignora a magnificência solene da erudição intelectual.
Conclusão... a sensibilidade musical do ser humano necessita algo mais do que poesias, campos harmônicos e arranjos elitizados por pré-requisitos iluministas. O ser humano necessita, sobretudo, sentir de seu meio externo algo que corresponda ao seu ritmo interno.
Certa vez, um neurologista e pesquisador do teatro me disse que o mais importante no teatro, para a relação entre público e espetáculo é o ritmo. Todo ser humano possui impresso dentro de si as marcas dos batimentos cardíacos materno que sentiu em sua vida uterina. Quando sentimos o ritmo de um espetáculo teatral ou de uma música, e nos deixamos levar por este ritmo, essa sensação nos remete a um retorno ao ventre materno. O ventre materno, o útero, é o local mais próximo que estivemos do ideal (em terra, para aqueles de convicções religiosas). A sensação de retorno ao útero materno que expressões artísticas como a música e o teatro nos proporcionam nos remete a sensação de retorno ao Paraíso Perdido, ou à Terra Sem Males.
Desta forma, deixo meu posicionamento, nem tanto em relação ao valor artístico do ai se eu te pego, mas à superficialidade e indolência com que as críticas às obras como esta tem sido construídas.
Porque, pra mim, ficar papagaiando as mesmas críticas de sempre sobre as produções culturais de massa da nossa época é o mesmo que reclamar da merda sem procurar saber de onde ela ela veio.
E Salve Teló!!