terça-feira, 27 de março de 2012

Ai se eu te pego!

Querem saber? Faz tempo que não ouça nada sobre o tal Teló.
Sem entrar no mérito se a música é dele, do João ou da Maria, quero mesmo é colocar alguma palavra sobre a música, seu sucesso na grande mídia e as críticas dirigidas a ela.
Na verdade, poderia usar este espaço pra alargar a coluna das críticas, dizendo coisas como "hoje em dia, música ruim é que faz sucesso", ou "a indústria cultural cria e troca ídolos como trocamos de cueca", ou ainda "onde já se viu uma porcaria dessa ser considerada representante da cultura brasileira".
Acontece que eu estou começando a achar todo esse papo crítico um pouco batido. Às vezes tenho a impressão que a crítica já faz parte do pacote distribuído pela tal indústria cultural. Esses tipos de comentários e posicionamentos me parecem cada vez mais óbvios, superficiais, e repetitivos, tanto quanto os refrões que as empresas fonográficas têm lançado no mercado.
Por isso, me proponho aqui a fazer a crítica da crítica, e com isso, uma defesa inóspita deste grande sucesso musical que é a "Ai se eu te pego".
A consideração mais relevante que os críticos tecem para argumentar contra esse tipo de música é sobre seu conteúdo textual, dizendo que não há nenhum tipo de valor poético e muito menos algum convite à reflexão.
Vejamos:

Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego

Delícia, delícia
Assim você me mata
Ai, se eu te pego
Ai, ai, se eu te pego

Sábado na balada
A galera começou a dançar
E passou a menina mais linda
Tomei coragem e comecei a falar.
Outro argumento das críticas é sobre o baixíssimo nível da obra em seu sentido musical. A música é péssima... a harmonia é pobre, os arranjos são óbvios, a melodia é repetitiva.

Quanto à questão da letra, realmente é um texto com nada de excepcional. É algo extremamente comum e cotidiano. E é aqui que queria chegar. No cotidiano. Talvez, "ai se eu te pego" tenha feito tanto sucesso porque fala justamente de coisa bastante comum à vida da maioria das pessoas? Fala sobre desejo, vontade, atração, beleza física... em síntese, fala sobre LIBIDO.
"Pois é! É justamente isso. É só disso que falam todas essas músicas de hoje em dia!" _ dirão os críticos. Sobre isso, chamo a atenção para uma diferença. Nesta letra o sexo é colocado de forma bem menos vulgar que em outras e não há insinuações pornográficas como na maioria.
Sabem, às vezes acho essas críticas um tanto quanto recatadas! Afinal, quem é que nunca viu uma garota, numa festa, num bar, etc... achou linda, e ficou com vontade de beijá-la e dar uns "esfregas" com ela? E a mesma pergunta pras garotas... Qual garota não sente desejos sexuais? Se não sente é bom procurar ajuda (psicológica), que o nome disso é frigidez e, se eu não me engano, sinal de histeria.
Enfim... não vejo nada de mal em uma letra que represente tão diretamente e de forma tão simples algo que é inerente a toda uma coletividade - podem chamar de paquera, azaração, galinhagem, um-sete-um, flerte, dar em cima, pegar, ficar, fornicar, dar mole, etc, etc, etc...
Sobre a questão da qualidade harmônica e melódica. Isso é outra coisa que tem me deixado com uma pulga atrás da orelha. As críticas ao nível da qualidade musical das obras rechaçadas me parecem, assim como as que se referem à qualidade literária, um tanto elitistas. Partem sempre de um ponto de vista quase erudito, colocando como referência de musicalidade artistas como Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano, entre outros, isso quando não chegam ao extremo de comparar com Beethoven, Mozart, Vivaldi...
Lamentável! Querem saber? Gosto da musicalidade do ai se eu te pego. Tem um ritmo e balanço envolventes e contagiantes, propícios à dança. É um convite para chacoalhar os esqueletos, divertir-se no salão, experimentar os movimentos do corpo. Aliás, este é outro ponto em que gostaria de chegar. Ritmo e corpo.
O caso é que me parece que essas considerações clássicas, tradicionalistas e conservadoras sobre valor musical ficam presas a elementos extremamente racionalistas, verificando se tal ou qual música obedecem a padrões musicais específicos. Além disso estes padrões estão sempre atrelados a uma determinada visão de mundo, bem como a uma determinada classe social, que é privilegiada pelo acesso, tanto aos bens culturais mais requintados, quanto às próprias possibilidades de produção destes bens dentro dos padrões.
Digo, inclusive, que estas críticas estão impregnadas por um certo etnocentrismo, que encara tudo aquilo que não tem ligação com as origens refinadas da cultura européia como porcaria ou pobre culturalmente.
Voltando à questão do corpo. É marcante na cultura européia, pelo menos em grande parte de seu desenvolvimento histórico, a marginalização do corpo. Entre o corpo e o intelecto, o primeiro sempre esteve em um nível inferior, enquanto o segundo permanece em um altar digno de glória. O corpo foi, durante bastante tempo, visto como inimigo do bem e da verdade, e como responsável por levar o homem ao erro e à ilusão. Isso para a cultura européia.
Os nativos americanos, por exemplo, ou as tribos africanas, mantinham uma relação harmoniosa e saudável com o corpo. Não tinham vergonha de seus corpos, andavam nus ou semi-nus sem nenhum, pudor ou pecado. Suas músicas eram um convite acentuado para a expressividade e linguagem corporais. Mas quando os colonizadores, europeus, chegaram, claro que acharam tudo isso um absurdo - homens-bestas, irracionais, entregas aos caprichos pecaminosos do corpo. E trataram de botar roupas nos índios e negros e ensinar cultura européia, incluindo música de bom gosto. E coitado daquele que não aceitasse. O fogo do inferno lhe vinha antecipado através de castigos, torturas e morte impressos pela força do exército e legitimados pelo intelecto.
Enfim, histórias da colonização à parte, pra mim chega das críticas acríticas que se fazem à essas porcarias da indústria cultural. Tais críticas não passam também de produtos da mesma indústria.
Unida à marginalização do corpo está a repressão sexual, e de carona vem a depreciação de tudo aquilo que considera mais os aspectos corpóreos e instintivos do ser humano e ignora a magnificência solene da erudição intelectual.
Conclusão... a sensibilidade musical do ser humano necessita algo mais do que poesias
, campos harmônicos e arranjos elitizados por pré-requisitos iluministas. O ser humano necessita, sobretudo, sentir de seu meio externo algo que corresponda ao seu ritmo interno.
Certa vez, um neurologista e pesquisador do teatro me disse que o mais importante no teatro, para a relação entre público e espetáculo é o ritmo. Todo ser humano possui impresso dentro de si as marcas dos batimentos cardíacos materno que sentiu em sua vida uterina. Quando sentimos o ritmo de um espetáculo teatral ou de uma música, e nos deixamos levar por este ritmo, essa sensação nos remete a um retorno ao ventre materno. O ventre materno, o útero, é o local mais próximo que estivemos do ideal (em terra, para aqueles de convicções religiosas). A sensação de retorno ao útero materno que expressões artísticas como a música e o teatro nos proporcionam nos remete a sensação de retorno ao Paraíso Perdido, ou à Terra Sem Males.
Desta forma, deixo meu posicionamento, nem tanto em relação ao valor artístico do ai se eu te pego, mas à superficialidade e indolência com que as críticas às obras como esta tem sido construídas.
Porque, pra mim, ficar papagaiando as mesmas críticas de sempre sobre as produções culturais de massa da nossa época é o mesmo que reclamar da merda sem procurar saber de onde ela ela veio.
E Salve Teló!!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sobre os Eixos Temáticos

Olá pessoal,


No encontro que tivemos nesta última quinta-feira no Instituto, foram colocadas algumas expectativas em relação ao curso de Artes Dramáticas e sua estruturação.

Um dos pontos mencionados foi sobre a formatação de nossa Grade Curricular.

O termo “Grade Curricular” se refere à lista de matérias ou disciplinas que formam um curso. Tradicionalmente, o curso Ensino Médio, por exemplo, tem na sua grade curricular as disciplinas: artes, biologia, educação física, filosofia, física, geografia, história, inglês, língua portuguesa, matemática, química e sociologia.

Alguns estudos defendem algo diferente deste tipo de organização curricular para o processo de ensino e aprendizado e sugerem uma grade curricular que esteja orientada por Eixos Temáticos.

O problema fundamental da organização tradicional das disciplinas, segundo estes estudos, reside no fato de que o conhecimento é abordado de forma fragmentada, ou seja, dividido em diversos compartimentos que não se comunicam entre si. Como se pegássemos algo que é inteiro, dividíssemos em várias partes e guardássemos cada pedaço em gavetas sem contato umas com as outras.

Provavelmente todos já tivemos a sensação, no Ensino Médio, de estarmos aprendendo coisas sem nenhuma ligação com nossa vida, com nosso cotidiano. Os conteúdos aprendidos na escola não fazem muito sentido pra gente a não ser quando pensamos em prestar concursos e vestibulares.

Mas a Educação pretende ir além da preparação para concursos. Ela pretende fazer com que saibamos compreender o mundo.

Esta sensação de distanciamento entre coisas aprendidas na escola e o nosso dia a dia não é só desculpa de quem não gosta de estudar. Ela tem algum fundamento.

O fato é que no nosso dia a dia nos relacionamos com diversas situações que nos trazem problemas e exigem soluções. E gostaríamos que na escola fôssemos preparados para lidar melhor com tais situações e para resolver os problemas que enfrentamos. Não só no nível objetivo, mas também subjetivamente, como lidar com conflitos familiares ou amorosos, optar por uma profissão, saber quem somos... Mas isso não acontece. Por quê?

Para resolvermos um problema precisamos conhecê-lo. Adquirir conhecimento sobre a determinada situação. E na prática, uma situação nunca possui elementos apenas de matemática. Ou de história. Ou de arte.

Cada situação de nosso cotidiano, cientificamente falando, está formada por todas as matérias que aprendemos na escola. Por exemplo: se vamos preparar uma refeição, isto envolve problemas básicos de matemática, física, biologia, química, história, geografia, arte, língua portuguesa... Se vamos dirigir um automóvel, a mesma coisa. Se vamos procurar vagas em uma Van para o Instituto, a mesma coisa... afinal, temos que compreender que dois corpos não poderão ocupar o mesmo lugar no banco (física), que talvez a mensalidade seja mais alta do que minha possibilidade financeira permite (matemática), que terei de argumentar com o motorista minha necessidade pela vaga (língua portuguesa), que fechar negócio com uma Van que vai de Santo Antônio para Jacarezinho não vai resolver meu problema se eu moro em Cambará (geografia), etc, etc, etc.

Enfim, os problemas que o mundo nos coloca necessitam ser compreendidos em sua totalidade, e esta totalidade é formada pelas diversas áreas do conhecimento que estudamos de forma fragmentada, dividida.

A proposta dos Eixos Temáticos procura dar resposta a este impasse. A grade curricular, desta forma, não estaria organizada por uma divisão do saber em diversas matérias. Mas sim, por um Eixo Temático.

Funciona mais ou menos assim. É selecionada uma determinada situação problema com o qual podemos nos deparar em nossa vida. Esta situação seria o Eixo Temático. E na tentativa de resolvermos tal problema é que vamos selecionando os conhecimentos disponibilizados pelos conteúdos escolares.

Tentando dar um exemplo específico do curso de Artes Dramáticas. No trabalho com o teatro, um problema base seria a montagem de um espetáculo. Quem já se aventurou nisso sabe o problemão que se arruma pra cabeça. Montar um espetáculo seria então nosso Eixo Temático. Esse problemão se desdobraria em vários problemas menores, que residem nas diversas áreas do conhecimento teatral, como a interpretação, a dramaturgia, cenário, iluminação, produção, rentabilidade, etc. Estas áreas estão, no curso de Arte Dramática assim como matemática e língua portuguesa estão para o Ensino Médio. E na tentativa de solucionar estes pequenos problemas é que seriam abordados os vários “tipos” de conhecimento que caracterizam o Teatro, sem no entanto, distanciar-se do problema maior que é montar a peça.

Desta forma, estaríamos assimilando os conteúdos teóricos necessários de uma maneira comprometida com prática, e vice-versa, assimilando saberes práticos de uma maneira comprometida com os conteúdos teóricos.


Bom... achei que poderia tentar oferecer alguma contribuição para a melhor compreensão da Grade Curricular e dos Eixos Temáticos, já que sou recém-formado em filosofia, e este curso nos motiva muito a fazermos este tipo de discussão.

Espero que tenha ajudado.

Esclareço que minha intenção aqui foi somente informar sobre um tema que acredito ser de pouco conhecimento do pessoal. Sem pretensão de formar opinião contra ou a favor sobre qualquer um dos métodos. Ambos possuem seus pontos positivos e possibilidades de apreensão e produção de conhecimento.

Independente do critério selecionado pelos nossos professores para a organização da grade curricular, estou certo de que teremos um excelente curso. Aos professores e responsáveis, caso eu tenha dito alguma bobagem, por favor me corrijam.

Mais uma vez, espero ter colaborado. Até semana que vem.